quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Assumindo Minha Responsabilidade

Sendo bem realista a minha vida sempre foi um rastejar e um encolhimento, no intuito de receber amor e aprovação dos outros.
Rastejei na minha infância para meus pais, irmãos, primos e tios e tias, não funcionou. Rastejei na minha adolescência, na casa da minha tia onde fui morar, rastejei para toda a minha família não funcionou.
Rastejei para o pai do meu primeiro filho, na verdade eu aceite toda a humilhação e calunia que me foi imposta em nome “do amor” também não funcionou. Voltei a rastejar para minha família e voltou a não funcionar. No meu relacionamento com meu ex-marido cheguei à apoteose: rastejei, me humilhei, me anulei, me tornei um nada. Queria que ele ao menos reconhecesse que eu era uma pessoa muito “boa”. Só consegui ouvi-lo dizer que eu o envergonhava que ele não tinha coragem de me levar em lugar nenhum porque eu era feia, gorda, e havia parado no tempo. Deixei de ir a te nas festas de escola dos meus filhos, eu não saia a não ser para trabalhar. Aceitei ele tendo relações sexuais dentro da minha casa com as empregadas. Na realidade eu nunca me senti dona da casa, nunca me senti digna de ter alguma coisa, de ser proprietária de algo, eu me sentia tão nada que era impossível nada ter algo.

Hoje quando olho para esse quadro com certo distanciamento, fico pensando como pude deixar as coisas chegarem nesse ponto. Eu não me senti digna de entrar na justiça para exigir os meus direitos, de pedir uma pensão digna para os meus filhos, eu não me senti digna de lutar para que ele não levasse os meus filhos. Eu jamais em tempo algum ousei dizer que tudo o que era dito sobre mim, era calunia. Eu simplesmente fiquei calada e aceitei, esperando que alguém viesse me salvar. “A justiça de Deus tarda mais não falha” Dizia minha mãe quando eu era pequena. Será que eu estava esperando essa justiça para me salvar.
Meu “altruísmo” não me deixava ver o quanto eu estava prejudicando os meus filhos. Hoje olhar para trás dói, dói muito mais sei que é preciso fazer, para limpar, ferida suja não cicatriza e eu quero que todas as minhas feridas sejam cicatrizadas, curadas.

Só hoje tenho consciência do tamanho do estrago que a minha apatia, causou em meus filhos. Naquela época eu não conseguia enxergá-los, nunca parei para ver o lado deles, os problemas que eu os estava causando, só conseguia ver o problema que eles estavam me causando. Eu achava que estava me sacrificando para eles, não levando o pai deles até a justiça, era um bem que eu estava fazendo a eles, afinal eu pensava, “é muito triste ver a mãe da gente levando o nosso pai para a cadeia”. Eu achava que um dia eles iam me agradecer porque eu estava me sacrificando para dar o melhor para eles.

Meu dente doía eu ia ao dentista e mandava arrancar, porque eu não tinha dinheiro para cuidar de mim.
Hoje vejo o quanto o meu “melhor” era terrível, para eles. Mesmo porque o meu melhor era uma fila de cobradores em nossa porta, era eu mentindo para conseguir dinheiro, eu deixando o pai levá-los para morar com ele, sem nunca lutar para que eles ficassem mesmo sabendo que nenhum deles gostava de ir morar com o pai, iam por pressão dele. Mas eu achava que estava fazendo o “melhor. Eu sendo humilhada na frente deles, nós sendo despejados, ficando sem luz ou sem água por falta de pagamento. Isso era o “meu melhor” para os meus filhos. Isso era a “minha bondade para com eles.”
Eu os deixando com um sentimento de culpa por que eu fazia tudo o que podia por eles, mais nada dava certo para mim. Eu me “sacrificava”.

Não entendia porque as pessoas mesmo vendo eu com três filhos sozinha, dando o maior duro, não tinham pena de mim. Será que elas não viam o meu sacrifício?
Eu viva para os meus filhos, não namorava, não saia de casa a não ser para trabalhar, eu vivia para os meus filhos, não tinha vida social. Com esse comportamento insano destruí amizades, destruí a minha vida e á vida dos meus filhos.

A dor que sinto em saber que o meu egoísmo, a minha cegueira emocional, destruiu a minha vida e a vida das pessoas que mais amo, principalmente em saber que no caso do Vi não terei mais como consertar, mesmo sabendo que não agi em minha consciência, que não fiz nada sabendo o que realmente estava fazendo, é desesperador, saber que eu fiz.

Sempre fui tão “bondosa” que as pessoas se aproveitavam de mim, nunca cobrei o que valia pelo meu trabalho, mas devido a isso eu achava que todo mundo tinha obrigação de me “ajudar” quando eu precisava, e vamos ser sinceros, alguém que vivia como eu sempre estou precisando de “ajuda”. Sempre pensei que os meus erros não podiam ser contados, que os outros não podiam contar os meus erros e fracassos, porque não era culpa minha, eu era tão “boa”, tão “trabalhadeira” tão “indefesa”, não conseguia entender porque os outros não tinham pena de mim. Porque eu tinha pena dos outros, eu fazia tudo o que estava ao meu alcance para “ajudar”, ou melhor, eu prometia, mesmo sabendo que não tinha a menor condição de cumprir. Não podia ver alguém com algum problema, que lá ia eu, “ajudar”...

Descobrir que eu só criava dor e desilusão foi um passo enorme na minha cura, mas tenho que confessar que talvez tenha sido o mais difícil de todos eles.

Sempre achei que me anulando eu estava deixando as pessoas livres, só agora consigo ver que na verdade eu as estava rejeitando e as ferindo. Na verdade eu não achava que alguém além de mim mesma pudesse ser ferida neste mundo. Que alguém além de mim, pudesse ser vulnerável, pudesse sofrer. Sempre me senti como sendo a mais sofredora, a mais injustiçada, nunca entendi porque as pessoas me evitavam, já que eu era uma pessoa tão boa, tão calma, tão amável, tão desprendida, porque não tinha amigos, porque todos me rejeitavam?

Tudo isso eu fiz, e agora me permito desfazer, eu vi tudo isso e agora me permito limpar, tudo isso da minha vida.
Permito-me honrar, e cuidar de mim, em primeiro lugar, e dos meus filhos. E isso que quero com todo o meu coração.
Permito-me olhar para o outro e me ver nele, saber que existe pessoas que como eu, se encontram em situações absurdas, e que existe milhares e centenas de milhares que ainda estão nessa situação, e que precisam de uma mão para sair dela. Eu ofereço a minha mão, estou pronta para servir, de apoio ao outro.
Fique na Luz e na Paz

Fátima Jacinto
Uma Mulher
http://araretamaumamulher.blogspot.com/

Um comentário:

Claudine Ribeiro G. Netto disse...

Eu estou inpressionada, como uma mulher se deixa passar por uma situação dessas. Meu DEUS isso ainda existe? Antes tarde do que nunca para abrir os olhos e mudar.

Um abraço.